Papa Leão XIV visita Angola, terceira etapa da viagem ao continente africano
O papa Leão XIV desembarcou neste sábado (18) em Angola, terceira etapa de viagem pela África, durante a qual lamentou que seus discursos recentes tenham sido interpretados como um debate contra o presidente americano, Donald Trump.
O primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, que também tem cidadania peruana, viajou para o país de língua portuguesa e rico em petróleo depois de visitar Camarões, onde, antes de partir, celebrou uma missa no aeroporto de Yaoundé.
Durante o voo para Luanda, capital angolana, Leão XIV lamentou que seus discursos durante uma viagem tenham sido interpretados como uma crítica a Trump e insistiu que não tem nenhum interesse em debater com o presidente americano.
O pontífice citou como exemplo um discurso sobre os "tiranos" que assolam o mundo, pronunciado na quinta-feira em Camarões.
As declarações foram redigidas muito antes do "comentário de Trump sobre a minha pessoa e sobre a mensagem de paz que promovo", afirmou aos jornalistas.
"E, no entanto, foi percebido como se eu estivesse tentando iniciar um novo debate com o presidente, algo que não me interessa em absoluto", destacou Leão XIV.
Grande parte da imprensa, a americana em particular, interpretou as declarações como uma referência a Trump, que poucos dias antes afirmou não ser um "grande fã do papa".
O republicano acusou o líder da Igreja Católica de "brincar com um país que quer uma arma nuclear", em referência ao Irã, e o qualificou de "fraco no combate ao crime e terrível para a política externa".
"Não tenho medo, nem da administração Trump, nem de proclamar em voz alta a mensagem do Evangelho", respondeu Leão XIV, que insistiu em seu dever moral de se pronunciar "contra a guerra".
- "Muito sofrimento" -
Os atritos com Trump ofuscaram a viagem africana do pontífice que, depois de visitar Argélia e Camarões, chegou neste sábado a Angola antes de concluir a viagem na Guiné Equatorial.
Do aeroporto de Luanda, Leão XIV seguiu para o palácio presidencial no papamóvel, observado por centenas de fiéis que o saudavam ao longo da estrada.
Diante do presidente João Lourenço e de outras autoridades, o líder católico denunciou, em seu primeiro discurso no país, as "catástrofes sociais e ambientais" provocadas pela "lógica extrativista" na gestão dos recursos minerais.
Apesar das vastas reservas de petróleo, um terço dos 36,6 milhões de habitantes de Angola vive abaixo da linha da pobreza.
"Há muito sofrimento, muita pobreza em Angola. Espero que o papa veja com os próprios olhos as necessidades da juventude aqui", afirmou Antonio Masaidi, engenheiro de 33 anos.
Depois de conquistar tardiamente a independência da potência colonial portuguesa, na década de 1970, Angola foi cenário de uma devastadora guerra civil da qual saiu em colapso em 2002.
A economia angolana depende muito do petróleo – e das flutuações nos seus preços – e é travada por uma corrupção gigantesca.
Apesar das dificuldades, nos últimos anos o país seguiu uma política de investimento em infraestruturas, como o projeto do corredor de Lobito, um porto na costa atlântica que deve receber, por via ferroviária, minerais extraídos da República Democrática do Congo e da Zâmbia. O país também construiu um novo e moderno aeroporto internacional.
Quase 44% dos angolanos se declararam católicos no censo de 2024. Leão XIV é o terceiro papa a visitar o país, depois de João Paulo II em 1992 e de Bento XVI em 2009.
No domingo, Leão XIV celebrará uma missa ao ar livre nas imediações de Luanda e depois seguirá para Muxima, uma cidade a 130 km de distância da capital que tem uma igreja do século XVI, que se tornou um dos principais locais de peregrinação do sul do continente africano.
Na segunda-feira, o papa viajará para uma cidade a mais de 800 km da capital, Saurimo, antes de deixar o país no dia seguinte e seguir para Guiné Equatorial.
J.Szymanski--GL