Como o movimento estudantil chegou ao poder na Sérvia
O movimento de oposição "Lista de Estudantes" venceu as eleições legislativas no domingo (25), na Sérvia, e pôs fim a 14 anos de governo de Aleksandar Vucic.
A seguir, alguns pontos-chave sobre o movimento estudantil sérvio que governará o país.
- Como começou o movimento estudantil? -
O desabamento, em 1º de novembro de 2024, de uma cobertura da estação ferroviária recém-reformada de Novi Sad, segunda maior cidade desse país dos Bálcãs, desencadeou dois anos de manifestações lideradas por estudantes.
O acidente deixou 16 mortos, e os manifestantes atribuíram a tragédia à corrupção do governo.
Foram os maiores protestos desde a queda do ex-líder iugoslavo Slobodan Milosevic, em 2000.
Desde o início, os estudantes universitários lideraram os protestos, bloquearam universidades e se organizaram em âmbito nacional.
Em setembro, um mês antes do segundo aniversário da tragédia, Vucic, de 56 anos, convocou eleições, uma das principais reivindicações do movimento de protesto.
O movimento se transformou em uma força política heterogênea. O "Lista de Estudantes" não tem um líder, e nenhum de seus integrantes pertence a um partido político.
- Como venceram? -
O movimento estruturou sua campanha em torno da oposição a Vucic, deixando de lado os temas que provocam divisões internas, segundo o analista político Dusan Vucicevic, da Universidade de Belgrado.
"Para vencer as eleições, os estudantes precisam do apoio de dois grupos de eleitores: os pró-europeus e os eurocéticos", acrescentou.
Os principais temas da campanha foram a corrupção, o Estado de Direito e os ataques à liberdade de imprensa. O movimento adota um modelo de tomada de decisões horizontal ou coletivo.
Sua organização gira em torno das universidades, com estruturas de decisão em cada faculdade, seguidas por instâncias de decisão entre universidades e uma coordenação nacional. Esse modelo, criado durante os protestos, foi mantido na campanha eleitoral.
Cada faculdade da Universidade de Belgrado tinha o direito de propor candidatos para as listas eleitorais. Os postulantes se apresentavam aos estudantes de cada faculdade, que faziam a seleção.
Duas horas antes do fechamento das urnas no domingo, a Sérvia havia registrado a maior participação em eleições legislativas em 30 anos, chegando a quase 68%, um dado que, segundo analistas, favorecia a oposição.
- Quem estará no comando? -
Durante a campanha, o movimento pediu várias vezes o fim do "culto à personalidade", que domina o sistema político do país há décadas.
A questão de quem representará politicamente o movimento continua em aberto, já que nenhum candidato ao cargo de primeiro-ministro foi anunciado.
Entre as figuras importantes do "Lista de Estudantes" estão Ilija Srdanovic, cardiologista que encabeça a lista eleitoral, e Radomir Saicic, professor de química que teve grande presença durante a campanha.
Srdanovic insistiu que, em nenhuma circunstância, será o líder da lista, que reúne 250 personalidades, todas em pé de igualdade.
- Quais são as principais propostas? -
Os candidatos terão que agir rapidamente para cumprir seu amplo programa de reformas, que tem o combate à corrupção como tema central.
Em relação à política externa, o movimento apresentou menos detalhes. Anteriormente, afirmou que manteria a posição sérvia de não impor sanções à Rússia pela invasão da Ucrânia.
O país continua dependente do gás russo, que compra a um preço bastante baixo, mas também recebe apoio por meio de empréstimos da União Europeia. Os estudantes herdarão esse difícil equilíbrio político.
Por enquanto, os estudantes vão se concentrar nas questões nacionais, mantendo a estratégia de união do eleitorado "contrário ao regime", explicou o cientista político da Universidade de Belgrado.
O analista acrescentou que as reformas propostas pelos estudantes aproximarão a Sérvia da União Europeia.
- O que acontecerá com Vucic? -
Vucic foi vice-primeiro-ministro a partir de 2012, depois primeiro-ministro e, finalmente, presidente até setembro de 2026.
Segundo o analista Dusan Vucicevic, o líder populista está "politicamente morto".
O ex-presidente sérvio renunciou ao cargo para poder se candidatar a primeiro-ministro.
A eleição presidencial está prevista para os próximos meses, mas Vucic está impedido de concorrer, e seu partido, o Partido Progressista Sérvio (SNS na sigla sérvia), ainda não tem candidato.
H.Zajac--GL